FRASE:

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"Se deres um peixe a um homem, vais alimenta-lo por um dia; se o ensinares a pescar, vais alimenta-lo a vida toda."

(Lao-Tsé, filósofo chinês do séc. IV a.c.)

domingo, 10 de outubro de 2010

DIVAGANDO SOBRE OS MEUS SONHOS

 O Falso Espelho - René Magrite, 1928

Anteontem, muito cedo ainda, eu acordei de um sonho com o barulho das persianas batendo, sacudidas pela ventania, habitual cartão de visitas de uma frente fria, ocupando o lugar da massa de ar quente. Fechei a janela, tentei dormir novamente e voltar para o meu sonho, mas percebi que as lembranças dele estavam rapidamente se desvanecendo, e  logo eu não tinha mais a mínima lembrança do que sonhara. E nem consegui mais voltar a dormir. Então, fui até ao computador e comecei a escrever isto.
Muitos estudos eu já li sobre o sono e os sonhos. Ao que parece, temos boas informações sobre as fases do sono e suas implicações, e algumas coisas sobre o papel dos sonhos no nosso sono. Mas, as razões pelas quais sonhamos com determinadas coisas ainda permanecem meio incertas, devido à complexidade que envolve as coisas relacionadas com a mente humana. Estou abordando aqui este assunto não de forma científica, mas apenas divagando sobre minhas experiências pessoais.
Quando garoto, eu me lembro bem que costumava sonhar com coisas que me deixavam preocupado: que havia um bando de extraterrestres ou vampiros querendo me capturar quando eu estava sozinho em casa, ou que eu estava atrasado para uma prova no colégio. Nessas ocasiões, despertar era um alívio! Já na adolescência, os sonhos eróticos costumavam ter consequências meio desastrosas...
Há alguns anos, quando fui dispensado até das peladas por baixo desempenho, decorrência da idade, dei para sonhar que estava jogando futebol. Numa ocasião, minha mulher reclamou que, durante o sono, eu a havia chutado! E era verdade! 
Com o tempo, nem eu sei como, minha mente parece ter assimilado os sonhos de tal forma que, em determinadas ocasiões, posso perceber que estou sonhando e não tendo uma experiência real. E isto geralmente ocorre quando acontecem situações muito sem lógica, como encontros com pessoas já falecidas. Que eu me lembre, por duas vezes eu questionei o que estava acontecendo, após pessoas falecidas falarem comigo, pensando: "Isto não é possível, você já morreu! Eu queria que você estivesse mesmo aqui, mas isto só pode ser sonho!" Em uma delas, eu despertei logo em seguida, meio frustrado por ter interrompido o "contato".
Certa vez li numa revista que a principal finalidade dos sonhos seria proteger nosso sono. Em alguns momentos, eu vi indícios de que esta teoria poderia ser verdadeira. Exemplos: ruídos que poderiam nos acordar são interpretados como parte da ação desenrolada no sonho. O "estúdio" criador de sonhos providencia rapidamente um cenário onde se encaixa o ruído e assim, não precisamos acordar para conferir o que é.
Existe uma situação pela qual já passei diversas vezes em sonhos: estou apertado para urinar, e fico procurando um banheiro. Quando o encontro, sempre tem algo que me impede de concretizar o ato: ou descubro que o vaso sanitário está sem fundo, ou que a parede do banheiro está aberta para a rua, ou que simplesmente o vaso foi retirado do local, e o local afinal nem é mesmo um banheiro. Logo depois, acabo despertando e estou realmente precisando ir ao banheiro. Conclusão: o sonho "inventa" um banheiro, para que eu me alivie durante o sono e continue dormindo, mas um dispositivo de segurança no cérebro me impede de urinar durante o sono, pois molharia a cama e eu mesmo. Assim, interfere no sonho, criando também condições que me impedem de usar o banheiro imaginário para cumprir um ato real.  Menos mal!
Desta forma, parece que partes diferentes da mente trabalham com objetivos às vezes conflitantes: uma prioriza o meu sono e procura preserva-lo a qualquer custo, criando e encaixando no sonho as situações e estímulos que me levariam a acordar. Outra, procura impedir que eu faça coisas que não deveria fazer dormindo, ou acreditar em coisas que apesar de boas, são falsas, como o encontro com entes queridos já falecidos, e que talvez me provocassem frustração ao despertar.
Sabe-se que só lembramos uma pequena  fração dos nossos sonhos, e assim mesmo, até alguns minutos após despertar. Se não reconstituímos as partes do sonho até determinado tempo, depois parece que tudo é apagado e as poucas partes que conseguimos lembrar ficam como que "esburacadas", com muitas lacunas.
Hoje em dia, sei lá porque, meus sonhos não são mais tão assustadores como na minha infância.  Será que agora eu não tenho mais medo de nada? Ou aprendi a sonhar só com as coisas certas? Segredos ocultos nesta caixa misteriosa que é a mente humana...

3 comentários:

  1. Pois é, caro Leonel, além do sonho ser ainda um dos mistérios do cérebro, a gente que sonha nem sequer consegue lidar com ele de maneira concludente. Você expôs o que acha, alguma coisa que ciência diz, mas continua sabendo tanto quanto antes, não é mesmo? Tive uma fase muito ruim em que meu sono estava sem qualidade, eu acordava todos as anoites de madrugada e não conseguia dormir mais. Depois de apelar para um clínica que faz análise do sono durante uma noite, foi diagnosticado que eu tinha vários distúrbios de sono e precisava de tratamento. Faço tratamento até hoje e sabe o que é interessante? As melhores noites de sono são aquelas que sonho. Sim, antes quando não conseguia dormir direito, não sonhava ou não conseguia lembrar do sonho, era terrível. Agora sonho em abundância e durmo bem, isso quer dizer que o sonho está relacionado com a qualidade do sono. Parabéns pelo texto e por ter partilhado teus grilos. Abraços, JAIR.

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  2. - Assunto tanto mais interessante por ser pouco explorado nas conversas com os amigos de sala, de bar ou de blog... talvez por nos sentirmos absolutamente confusos sobre ele. Até o sempiterno "Tempo" do Jair parece submeter-se às normas multiformes de Morfeu.
    - Meu pior pesadelo: ser perseguido por um gigante feroz e impedido de correr por estar em areia movediça. Faz décadas que não me acomete...
    - Sonho que eu mais aprecio: estar livre da gravidade e poder flutuar (sempre em posição ereta) pelas redondezas. É recorrente até hoje.
    - De qualquer maneira, se acordo de repente com a lembrança de um sonho, já sei: ou registro minhas impressões rapidinho ou elas logo se volatilizam.
    - Valeu, Leonel... bons sonhos pra você!

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  3. Leonel, amado!
    Fica aqui registrada uma promessa: em novembro vou escrever para vc e outros tantos curiosos da mente humana sobre os sonhos, ok? Me cobre caso esqueça...Suas reflexões são, de maneira geral,pertinentes...mas, de verdade, fiquei encantada com a beleza, simplicidade, que escreveu sobre o assunto. Não sei qual é sua religião ou crença, mas parte de seu relato diz respeito a outro tipo de "fenômeno"(...E isto geralmente ocorre quando acontecem situações muito sem lógica, como encontros com pessoas já falecidas.) De qualquer maneira: "Os sonhos são os guardiães do sono". (S.Freud)
    Beijuuss n.c.

    www.toforatodentro.blogspot.com

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